Isolamento social: qual o seu impacto na adolescência?

Por: Kátia Steffen Brianti

Muito já se disse sobre o momento complexo que nos tomou como um susto, impôs um isolamento abrupto, necessário, e, cada vez mais, engloba diferentes questões. Alguns especialistas dizem que o novo coronavírus circulará entre nós por um bom tempo. A incerteza, o medo e a angústia também. Vivemos um contexto complicado que extrapola a questão sanitária, é uma realidade em diferentes registros: psíquico, social, econômico, político e de saúde.

Qualquer um de nós pode ser afetado pela COVID-19, mas apenas uma parte das pessoas tem condições adequadas de seguir as orientações de prevenção, além de cumprir o isolamento social. Acesso às condições mínimas de saneamento básico, educação on-line, lazer e bem-estar, infelizmente não atingem amplamente a população brasileira. Estamos diante de uma desigualdade efetiva no campo social, educacional e de saúde. A população vulnerável do nosso país tem sofrido muito e os adolescentes pertencentes a esse grupo têm seus sonhos, desejos e perspectivas de futuro intensamente afetados.

A pandemia mexeu com nossa rotina de estudo, trabalho, lazer e esporte; além de alterar nossas redes de apoio. Pensar na possibilidade de intercorrências com familiares ou pessoas próximas, à distância, nos angustia demais. Admitir a necessidade de afastamento e experimentar todos os dias diversos tipos de emoções como solidão, desamparo ou medo, também nos afeta. Em algo nunca experimentado por nós, a segurança de nossa família, amigos, trabalho e a continuidade de nossos projetos parece ter um fim.

Fomos tomados por uma descontinuidade radical em nossas vidas.

A quarentena impôs, ao mesmo tempo, distanciamento e excesso de convivência. Mãe, pai e adolescentes vivem juntos em tempo integral com certa dificuldade de separar os espaços, uma superposição de diversos papéis e a aglutinação de tarefas de outros lugares em um só. Tudo isso provoca uma sobrecarga familiar repleta de preocupações, dificuldades e, ainda por cima, sob o mesmo teto.

A primeira vítima do excesso de convivência é a privacidade. Famílias, ao mesmo tempo em que relatam desentendimentos frequentes, mencionam sentimento de culpa por isso acontecer. Ocorre, portanto, uma vivência estranha, de modo contínuo e indeterminado.

Mas como podemos ajudar nossos jovens a atravessar esse momento?

Todos nós estamos submetidos às restrições de ir e vir. Agora vamos imaginar essa situação ocorrendo entre os 12 e os 20 anos de idade, por exemplo.

Podemos falar da adolescência como uma época perigosa e trabalhosa, uma crise difícil de administrar tanto para os adultos como para os próprios adolescentes. Eles passam por um leque de sentimentos, despedem-se da infância e ganham o corpo que chegou à maturação necessária, mas emocionalmente deverão atravessar muitos obstáculos, resolver crises internas ou da realidade das pressões do ambiente. Alguns autores definem esse momento como uma moratória, uma espera enigmática, cheia de lutos e inseguranças, um caminho longo da puberdade até a vida adulta.

Em nossa sociedade, muitas vezes, a adolescência é vista como o melhor momento da vida. Alguns pais prometem, inconscientemente, uma época muito boa, cheia de liberdade, sem sofrimento, como a melhor coisa do mundo. Enxergam essa liberdade e boas perspectivas como uma possibilidade de realização dos próprios desejos. Uma idealização de que tudo seria maravilhoso, e os adolescentes compram essa ideia.

Na verdade, trata-se de uma zona turbulenta e instável, onde os jovens vivenciam conflitos e impasses. É uma caminhada subjetiva, singular. Cada um se depara com menos ou mais dificuldade para superar essa passagem, conforme sua sensibilidade, sua força ou fragilidade. Alguns conseguem sozinhos e outros precisarão de ajuda.

Nessa quarentena, em meus atendimentos online, observo o grande sofrimento dos jovens. Sentem-se angustiados e distantes da vida idealizada, seja aquela da fala dos pais ou das próprias experiências longe deles.

Aqui, vale lembrar que muitos sintomas surgem ou são potencializados pelo confinamento, tais como quadros de depressão e ansiedade.

Uma hipótese para a aflição desses jovens é que lhes foi imputada uma esperança muito grande, uma promessa de liberdade, de realizações e que também poderiam ser e fazer tudo que quisessem. Entretanto, estão percebendo na pele que ninguém pode fazer tudo que quer. Há um grande sofrimento nessa geração.

Vivem em quarentena quando necessitam de espaço, precisam e querem se diferenciar dos adultos. Quando deveriam ter suas experiências fora do âmbito familiar, explorando a cidade com seu grupo, estão confinados com pai, mãe e irmãos.

Falta-lhes a alternância entre presença e ausência, tão importante para o desenvolvimento pessoal. A moratória mencionada acima fica mais estendida e acentuada dessa forma.

É importante também atentar para as consequências do excesso de exposição às telas e às mídias sociais. Despejam uma enxurrada de informações, muitas vezes percebidas pelos jovens como únicas fontes de informação, lazer e contato com o mundo. O ritmo acelerado não permite que o adolescente se perceba, entenda o que está sentindo e se regule. Isso pode gerar mais angústia e ansiedade, principalmente com os mais novos.

Nessa caminhada particular, os adultos podem ajudá-los a atravessar essa jornada na quarentena com mais sensibilidade. Ampliar o diálogo e ao mesmo tempo suportar o silêncio, sempre respeitando a individualidade de cada um. É uma difícil equação: se afastar para dar o espaço necessário e a privacidade que tanto querem e, ao mesmo tempo, estar próximo caso precisem. Estar atento aos sintomas ou mudanças repentinas, pode nos aproximar de um jovem em sofrimento latente.

Por fim, gostaria de ressaltar que, na maioria das vezes, a aproximação desejada vem da capacidade de poder entender, sentir junto, não minimizar as transformações e sentimentos conflitantes.

Kátia Steffen Brianti é psicóloga clínica formada pela PUC-SP, e psicanalista com especialização em Psicoterapia Psicodinâmica da Pré-adolescência e Adolescência, pelo Instituto Sedes Sapientiae. Atua com adolescentes há 23 anos, sendo Psicóloga Escolar dos Ensinos Fundamental 2 e Médio por 10 anos. Contato: katiabrianti@gmail.com

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